Retrato em Branco e Preto

28.8.16

Do agora

Há exatamente um ano, com um sorriso grande no rosto, embarcávamos naquele vôo de chuvas e de incertezas. Estaríamos dali a algumas nuvens e horas depois de volta para a nossa primeira casa. Quando eu olhava pela janelinha do avião, de coração apertado de medo e de alegria, eu nem imaginava tudo que eu ainda iria vivenciar nos 365 dias que viriam.

Foram mudanças - de cidade e de estado, provações, aprovações e, dentro do caos inexplicável, do caminho mais imperfeito e imprevisível possível, a vida seguiu. Hoje um ano novo pessoal se inicia, com a grande felicidade de poder sentir e saber que nesse momento estou exatamente onde deveria estar. Logo eu, que adoro um casulo, abri as asas para receber visitas e abraços. Foi um dia 27 de agosto de feliz 31 anos para mim.

5.7.16

Das colheitas

Definitivamente, migrei para um universo paralelo sem deixar recado para ninguém. Sigo sem dias, sem datas, sem parâmetros, apesar do reloginho do notebook me mostrar exatamente o meu tempo espaço de agora. Ontem me assustei ao me dar conta que estamos em Julho. E já é dia quatro, disse ele, rindo da minha descoberta absurda.

***

Voltei a colar lembretes de papel pela mesa para não esquecer as datas, já que o aplicativo que deveria me alertar sobre os prazos passa, de uma forma muito absurda e muito mágica, batido pelos meus olhos. Simplesmente não vejo, ou deixo para depois e esqueço. É maluca essa luta que a gente enfrenta contra o próprio tempo.

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Que bom que a vida também segue e, no tempo certo, as coisas também acontecem. Colhi mais um fruto do regresso ontem a tarde e vou voltar a estudar. É só mais um passo firme em direção a uma porta bonita que se abriu, sem muitas garantias ou promessas, mas eu fiquei tão contente! Já temos mais motivos para comemorar. =D

8.6.16

Das mudas

É preciso mesmo muita paciência pra lidar com a teimosia alheia, muita. Doses cavalares de paciência, na veia se possível. Infelizmente, paciência é algo que me falta desde o berço e agora é que eu resolvi aprender a cultivar, mas como qualquer iniciante em uma atividade delicada, mato minhas mudas diariamente. Todo dia é dia de plantar novas mudas de paciência por aqui. Taí uma colheita que eu tenho total consciência de que vai demorar a chegar.

27.5.16

Das redescobertas

A missão mais complicada que recebi nos últimos dias foi a de tentar me reencontrar. Cada dia, uma nova batalha. Cada passo, a busca de um porquê. Na bagagem para essa viagem interior tem música antiga, uns livrinhos de esperança e paz, o sabor do chocolate, listas espalhadas em post it colorido e alguns desejos infantis. Tem sido uma verdadeira luta entre a antiga e a atual, a sempre-fui-assim eu e a eu que-quero-ser. Uma confusão danada, um verdadeiro enlinhado como se diz por aqui. A cada pequeno nó desatado, a cada redescoberta de mim, uma grande vitória celebrada de pés descalços. O sufoco constante na garganta já sumiu e foi fácil entender o motivo: voltei a escrever.



25.5.16

Do céu

Não sei como anda o céu de vocês, mas por aqui o espetáculo de cada dia tem sido cada vez mais incrível e hipnotizador. Pela manhã, quando não chegam as nuvens acinzentadas de chuva - mais que necessária, diga-se de passagem - o amanhecer se desdobra em cores e desenhos em nuvens sem fim.

O dia segue quente, sol a pino, céu azul, quase nenhuma nuvem no céu. Nossa sorte é essa brisa que chega para acalentar as árvores e apaziguar um pouco do calor desse nosso verão eterno. Seguem as horas e com elas as copas dançantes ganham cores mais ou menos verdes, a depender do caminhar imponente do astro rei.

Perto das quatro, o céu já se prepara para receber a aquarela mais bonita do dia. Aos poucos, o horizonte ganha o contorno das cores alaranjadas, vermelhas, lilázes e azuis. Não sei explicar muito bem, aliás, nem se pode explicar uma beleza desse tamanho que se transforma em tão poucos minutos. Basta um piscar de olhos e tudo muda!

A noite chega e também não deixa nada a desejar. Impressão minha ou o céu anda cada dia mais estrelado? A lua banha as ruas e as calçadas, as estrelas mais parecem brilhantes, sem contar com a presença de alguns planetas que se fazem visíveis a partir de umas horas. Se eu pudesse, ficava a noite inteira olhando pro céu.

Tenho em mim esse pó que vem da terra e um tanto mais de poeira cósmica que nem sei. Sempre que penso na minha vida, nos meus medos, nas minhas escolhas e nos meus planos, olho para o alto e vejo o quanto sou pequena. Tento me acalmar ao encarar o caos e o silêncio, não demora muito e eu só posso agradecer.

8.5.16

Dos sonhos lúcidos

Foi engraçado olhar pela janela e admirar aquele pôr do sol outra vez.“Pensei que nunca mais iria reviver esse momento” disse, muito lúcida no sonho, enquanto olhava o infinito céu de fogo se transformando na minha frente. Eu olhava e reconhecia cada pedacinho daquele horizonte único que eu tanto admirei.

Olhei para a mesa da sala e vi dois livros para crianças com o título em português. Achei tão engraçado e me perguntei como as crianças fariam para entender o que havia escrito ali. Lembrei que a ilustração é também uma linguagem universal enquanto admirava algumas páginas e sorri. Enquanto caminhava pela sala, pensei o quanto foi bom estar ali outra vez e acordei.


4.5.16

Dos últimos dias

Das certezas - escrever o livro.

Das dúvidas - o próximo grande passo.

Dos orgulhos - o de ter coragem de mandar o medo pra casa do caralho quando ele insiste em querer ser maior que eu.

1.5.16

Do depois

Tem sido assim a cada despedida, é como ganhar uma passagem gratuita para embarcar no navio fantasma dos questionamentos. Pra quê tanta loucura, tanta correria, tanto depois se o amanhã pode nem chegar para nós? Olho para o lado e vejo meus pais, minha família, minha vó e agradeço por mais um dia por aqui. Só agradeço.

5.4.16

Das questões

A mesa onde passo horas e horas do meu dia atualmente fica bem próxima à rua. O que existe de verde e de claridade, existe em dobro de barulho. No início era difícil buscar concentração com tantos estímulos visuais e sonoros, mas agora, já adaptada à rotina dos passantes, encontro nas brechas do cotidiano alheio memórias incríveis que me levam longe nos pensamentos.

Existe uma escola no quarteirão seguinte ao onde fica a a minha casa e isso significa que, em horários bem específicos do dia, grupos de estudantes alegres e barulhentos passam pulando, cantando e brincando pela mesma calçada onde um dia eu tanto brinquei.

Às 6h45 e às 11h o público miudinho das creches desfilam por aqui, sempre com muito choro, muita birra e muitos porquês. Quando eles percebem os chachorros tomando banho de sol na garagem então, aí é uma festa de gritos e latidos. Nessa hora a concentração vai embora e o melhor mesmo é ir tomar café.

Vez ou outra consigo acompanhar os diálogos que acontecem em frente ao portão e me pergunto o que eu faria na situação em que os adultos responsáveis por essas crianças se encontram quando se deparam com as perguntas absurdas que só a sinceridade infantil permite fazer.

Outro dia uma menina reclamava para a mãe que os amigas riram dela por conta do celular “de pobre”. Fiquei tão chateada com isso, lembrei também que às vezes as crianças conseguem ferir sentimentos como ninguém mais. Uma outra respondia com revolta a acusação impiedosa das vozes que gritavam inssistentemente um “tá namoran-dô” tão bem ensaiado que não dava para não rir da situação.. Não sei, gente. Não tenho psicológico para criança não.

À tarde é a vez dos mais crescidos e dos adolescentes passarem por aqui. Esse momento exige um outra pausa para um café, porque não dou conta da energia que esse povo tem em plena uma hora da tarde nesse sol de cozinhar os miolos. Eles cantam, brigam, falam bordões da internet, é uma loucura! Mas, todas as tardes é impossível não lembrar da festa que eu fazia com minhas amigas no caminho para o colégio também. Nessa hora, sinto saudades.

Às 17h começam a voltar para casa, além dos estudantes, as pessoas que deixam os seus postos de trabalho. Quase sempre tem um pôr do sol incrível no céu, idosos sentados na calçada, um vizinho ouvindo música alta, pessoas cantarolando trechichos desencontrados, senhores assoviando verdadeiras sinfonias, passarinhos em revoada, tapioca quentinha sendo vendida, cachorros latindo.. É um momento tão caótico e tão mágico que não tem como não achar esse cotidiano um absurdo de bonito.



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ps: A inspiração para esse post foi um tweet da Juliana, do Fina Flor, que falava sobre mais uma das perguntinhas engraçadas que uma professora pode encontrar pela frente na sala de aula.. Se fosse eu nessas situações delicadas ou embaraçosas, mesmo pensando bastante a respeito, nunca saberia o que responder! :P 

3.4.16

Dos ensaios

Foram muitas as tentativas, muitos os ensaios para voltar aqui. As voltas, elas foram tantas quanto a de um rodopio infantil ao brincar no final da tarde. Por hora, me limito a limpar os espaços, a faxinar o teclado esquecido de palavras, a trocar o chaveiro de iniciais desgastadas. As memórias são muitas, como sempre, colecionadas com cuidado e enroladas em plástico bolha. Estou em casa, minha casa, e para mim não poderia ser melhor.

Enquanto desfaço as malas, recordo que devo notícias a tanta gente e confesso que não sei nem por onde começar. Temos tantas novidades e tantos planos em andamento, conto tudo aos pouquinhos para não faltar assunto nos próximos dias. Peço desculpas a quem se importou com o sumiço e agradeço a gentileza dos tantos recados. Agora que está tudo em (des)ordem outra vez, voltei para ficar.