Retrato em Branco e Preto

22.9.17

Das paredes

Caminhando pelos corredores da Universidade, percebi a presença de alguns cartazes amarelos em alguns locais bem estratégicos. É como uma porta que se abre na hora certa em um corredor que não tem saída, daquelas que você olha, mas não vê se não estiver realmente atenta. Frases como “você é importante”, “não se cobre tanto”, “foi só uma prova” estão espalhadas por todo o prédio e no hall de entrada existe um painel incentivando os alunos a escrever o motivo pelo qual vale a pena viver. Apesar de ser uma ação aparentemente boba e simples, foi engraçado perceber como eu, que estava em um dia muito difícil, me senti confortada. Espero que mais alguém tenha se sentido abraçado também e, principalmente, que tenha encontrado um motivo para seguir em frente e para pedir ajuda.

10.9.17

Do domingo

Acho que assim como grande parte das pessoas, nunca fui muito fã do domingo. Por mais que eu aproveite bem as minhas horas de descanso no sábado, sempre tenho aquela famosa depressão pré-segunda-feira. Bem que o relógio poderia desacelerar e demorar mais um pouco para o final de semana acabar, não é mesmo? Mas já que não dá, o jeito é encarar a realidade.

Para falar a verdade, domingo continua não sendo o meu dia da semana favorito, mas depois ver por aí nas redes uma imagem que falava sobre aprender a atribuir coisas boas não só para a sexta-feira ou para o sábado, resolvi dar uma nova chance e tentar deixar o preconceito de lado para aproveitar melhor o meu domingo também.

O ideal mesmo seria passar o dia ao ar livre, curtindo uma praia ou fazendo um passeio no parque. Mas, como na realidade nem sempre isso é possível ou eu mesma não tenho disposição para para sair no sol, me dou de presente o privilégio de dormir até um pouquinho mais tarde. Tomo o meu café com calma, converso com minha família, cuido das plantas e faço um pequeno, mas necessário, ritual de beleza.


Ouvir música, ficar em silêncio, ler um livro leve, dormir um pouco mais durante a tarde, aproveitar a cama e a preguiça do fim de tarde sem culpa tem sido muito bom também. Mas o aprendizado mais importante dessa tentativa carpe diem de ser não é só sobre aproveitar o dia de hoje, mas também sobre cuidar da ansiedade e a aprender a deixar o amanhã para amanhã. Sem pressa, um dia de cada vez.

8.9.17

Das impressões

Na última quarta-feira fui à antiga faculdade para cancelar a minha matrícula e a moça da recepção olhou bem seriamente para mim enquanto entregava a folhinha de solicitação e perguntou se eu era maior de idade para realizar o procedimento. Respondi que sim e só pude rir no momento, já que aparentemente foi só cruzar a casa dos trinta para que a sociedade, de uma maneira geral, passasse a me chamar de senhora onde quer que eu vá.

Acho que nunca vou esquecer a primeira vez que uma pessoa me chamou seriamente de senhora. Não foi aquele senhora por educação, foi um senhora por eu aparentemente ser mais velha mesmo. Cheguei em casa chocada. Nunca tive nenhum problema com a minha aparência e muito menos com a minha idade, mas naquele dia eu me questionei se estava mostrando para o mundo uma imagem diferente da que eu sou realmente.

Tudo bem que eu não tenho mais vinte e tantos anos e que pode ser que o estresse diário me torne sim uma pessoa mais séria e sisuda. Será que são as roupas que eu escolho? Apesar de saber que eu sou uma cópia da minha mãe, nunca mesmo me imaginei como senhora. Foi tão estranho! Minha cabeça, meus olhos, meus cabelos cacheados, tudo ali como sempre foi. E eu virei uma senhora.

Falando em mãe, lembrei de um dia em que ela se olhava no espelho enquanto se arrumava para uma festa e me disse que não tinha percebido que o tempo tinha passado. Ela me disse que na cabeça dela ela ainda era aquela menina de vinte anos, mas que o espelho mostrava que não. Na época, eu ainda muito menina, não entendi como alguém não poderia sentir o tempo passar. Hoje eu entendi, mãe. Agora eu senti no reflexo que o tempo não passou também.

4.9.17

Das intuições

Tem gente que não acredita e acha até que é brincadeira, mas pelo menos comigo é incrível como a minha intuição nunca falha. Isso mesmo, nunca, nem nas menores besteiras, nem nas maiores também. Esse é o meu medo.

Mesmo quando todos ignoraram a minha dúvida, eu sentia que aquele detalhe na documentação de um processo do trabalho traria problemas futuramente. E trouxe. Agora é resolver e não "deixar pra lá" nem mais uma vez quando a minha intuição falar.

3.9.17

Dos planos

Para agosto eu tinha um plano secreto de escrever diariamente, nem que fossem duas linhas, para tentar voltar a ter o hábito de sempre passar por aqui. Não teria nada além de uma rotina, de pequenos detalhes ou algumas descrições imperfeitas de acontecimentos que acho que gostaria de lembrar algum dia.

Dos grandes acontecimentos a gente sempre guarda uma recordação, sejam elas alegres ou tristes. Mas, e dos pequenos? O que sobra das pequenas gentilezas, aprendizados, descobertas e alegrias? Por aqui assumo logo que a tendência é esquecer, apesar do meu esforço diário de prestar atenção nas coisas que acontecem ao meu redor. Não tem jeito, a rotina suga as nossas lembranças.

O Retrato sempre me ajudou a guardar os pequenos detalhes de cada momento que registrei por aqui. Sempre que leio um post antigo, consigo sentir exatamente o que eu estava sentindo e o que me motivou a escrever. Em alguns deles, consigo até mesmo o visualizar o momento em que escrevia, a roupa que estava usando e o local onde estava. De uns anos pra cá, apesar das experiências continuarem acontecendo, sinto como se eu estivesse deixando o livro das minhas memórias em branco.

Completei 32 anos no dia 27 e não tem uma linha escrita sobre esse dia. Sobre como acordei tarde e encontrei ele arrumando a casa para que eu não me estressasse com a bagunça de sempre; sobre como minha sogra chegou com duas sacolas carregadas de ingredientes e preparou uma peixada maravilhosa para o nosso almoço; sobre como o dia correu calmo, quente e melancólico como qualquer domingo; sobre ter a sorte de estar perto da minha família; sobre quem não precisa de nenhuma rede social para lembrar e nunca esqueceu.

Tentei me lembrar também dos detalhes de alguns dias que foram importantes para mim nesse hiato não planejado aqui no blog e o que veio na memória foi uma mistura de dias iguais e muito vazio. Bem, foi por conta dos mesmos motivos de sempre que o plano não funcionou em agosto, mas vai funcionar em setembro sim! Assim espero.

24.7.17

Das faxinas

Há tempos a casa perdia espaço para tralhas e caixas de guardados alheios. Com o fim do semestre e a rotina pesada de trabalho, pilhas e pilhas de papéis e rascunhos escritos acumulados sobre a mesa já não deixavam disponíveis um palmo do vidro. Eu me entristecia a cada dia ao ver o caos por todos os lados, foi como perder o controle de mim e de nós.

Eu pedi ajuda e ele, perdido entre químicas e cálculos, disse que ajudaria assim que as provas acabassem. Eu esperei, o semestre acabou e no dia seguinte ele acordou de vassoura e pá na mão. Rasgou papéis, selecionou livros, eliminou caixas, martelou pregos e deu banho no cachorro. Foram dois dias intensos de reorganização que permitiu aos poucos voltarmos a enxergar os espaços com outros olhos.

Antes de dormir, com os ossos da coluna trincando de dor, agradeci pela ajuda e principalmente por ele ter poupado minhas costas ao fazer sempre a parte mais difícil do trabalho. Acho que nesses tempos de egoísmo, dividir a faxina pesada é uma das maiores provas de companheirismo e de amor que se pode ter.

9.7.17

Dos Julhos

Há cinco anos, durante uma viagem de férias, decidimos deixar a nossa já estável rotina e voltar para Berlim. Em um mês organizamos mudança, demissão dos nossos empregos, fizemos as malas e caímos na estrada. Lembro de ter chorado um pouco ao avistar os muros coloridos contrastando com o céu cor de chumbo da Inglaterra pela última vez, mas ele não estava feliz e nada nos prendia realmente ao lugar.

Há quatro anos eu já tinha uma vida um pouco mais organizada na Alemanha, um emprego maluco em uma startup em ascensão, uma equipe de trabalho que se transformou em amig@s querid@s e meus lugares preferidos na cidade. Lembro de ir caminhando ao trabalho, atravessando parques, ouvindo música e prestando atenção em cada detalhe.

Há três anos, nos mudávamos para um apartamento com quase nenhuma mobília e sem nenhuma cortina, mas com tanta luz que a casa se preenchia de cor durante todo o dia. Lembro-me muito bem da noite do fatídico 7x1, mal conseguimos dormir por conta da cantoria que ecoava pelas ruas vazias de tráfego e repletas de grupos que esbanjavam alegria. Da janela, viamos toda a cidade festejando e o céu colorido com os fogos de artifício.

Há dois anos, desembarcávamos em Berlim novamente após curta temporada no Brasil. Dessa vez, voltávamos para desfazer os nós, os contratos, as contas no banco e demais vínculos que nos ligavam ao lugar. Foram os dias mais bonitos, o verão mais quente, os passeios mais alegres que já fiz. Sinto até hoje o aperto no peito dos abraços e do medo que senti ao deixar o meu horizonte de todos os dias rumo ao que tinha se tornado desconhecido.

Há um ano, já em Fortaleza e ainda completamente bagunçada após o retorno de uma curta temporada de vivência em João Pessoa, recebia o convite para um trabalho muito legal e passava novamente no vestibular. Naquele julho eu sentia que, aos poucos, conseguiria sair da inércia e do limbo pós-retorno e voltaria a me envolver com a cidade que escolhemos para viver.

Nesse julho, completo um ano no trabalho. Descobri novos interesses, conheci novas pessoas, tenho uma rotina muito maluca e sinto que tenho dado pequenos passos todos os dias. Estou prestes a iniciar uma nova graduação, que foi um grande conquista e também uma grata surpresa nesse processo de reconstrução e de religamento de laços.

Quem diria que após tantas idas e vindas, tantas mudanças, tantos medos e receios de tomar decisões gigantescas, estaríamos realizando exatamente aquilo que colocamos no papel? Olhando para trás, percebemos que quatro anos não são nada e que a vida passa enquanto perdemos tempo e adiamos escolhas. Nesse exato momento me sinto feliz por escolher não ter medo de arriscar.

18.6.17

Dos respiros

Aproveitamos o último feriado para desligar a nossa mente do mundo e da rotina. Acordamos cedo, fomos à praia, mergulhamos e caminhamos sem pressa ou hora para voltar para casa. Tivemos um almoço animado que, entre conversas e risadas, cervejas e sorvetes, memórias e afetos, acabou se transformando em café e depois em jantar.

A gente precisava disso, de sair da correria, da hora marcada dos prazos e burocracias sem fim. Voltamos para casa já tarde, sem uma gota de cansaço no corpo, e parece que esse dia de pausa foi mesmo um respiro para a alma. Dormi sem hora para acordar. Me comprometi comigo mesma a ficar longe do computador, das notícias, do telefone e ou de qualquer outra lembrança da minha rotina dos últimos dias.

Estou aqui nesse momento, enquanto escrevo, tentando pensar no que realmente vale a pena nessa vida. O trabalho, a correria, o estresse, o cansaço, tudo isso está me levando para onde? Para um destino feliz e saudável é que não é. Não me arrependo de nenhuma escolha, de nenhum desafio, mas definitivamente preciso aprender a rodar todos os pratos e a tratar todas as prioridades de maneira mais equilibrada.

Preciso maneirar também a minha carga de responsabilidade, a enfrentar os problemas do dia a dia de maneira mais leve e a entender que aquilo que não possui remédio, remediado está. Vou buscar um tratamento para essa ansiedade louca, vou aprender a meditar e se preciso for, cortarei também o café e o que mais for necessário para me acalmar.

Amanhã volto à rotina, mas volto com o compromisso de que darei um passo de cada vez até que cada coisa na bagunça da minha vida encontre o seu devido lugar. Não mais que o devido espaço necessário que lhe couber: uma hora de cada vez, um dia de cada vez, um pensamento de cada vez até que minha cabeça se adapte ao novo ritmo e reaprenda a funcionar.

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Update: essa mudança será bem mais difícil do que eu imaginava. =~~~

7.5.17

Dos alertas

Os dias têm passado sem que eu me dê conta, nem acredito que já é domingo outra vez. Tudo bem que os benditos feriados de abril contribuíram um pouco para essa sensação de distorção do tempo, fazendo das quintas novas sextas e das terças novas segundas. Mas os feriados, apesar da grande ajuda, foram poucos para uma cabeça que não descansa.

Não encontrei ainda a fórmula mágica do equilíbrio e preciso confessar que esse tudo-ao-mesmo-tempo-agora de acontecimentos têm me levado à completa exaustão física e mental. Parece que vinte e quatro são poucas horas ou então sou eu que estou tentando dar passos mais longos que minhas pernas podem alcançar.


Já recebi um sinal de alerta, preciso desligar.

23.4.17

Das Caixas

Depois que aprendi a me desapegar de quase tudo, tem sido difícil para mim voltar a comprar determinadas coisas. Como nesse momento tenho a sorte de ter acesso a várias bibliotecas por aqui, sempre que preciso de um livro para estudo ou lazer, recorro ao empréstimo. Isso tem funcionado bem para mim, o que me leva a comprar livros somente quando preciso dar algum presente.

Nos últimos meses, senti necessidade de começar a adquirir um material mais “meu”. Com o retorno aos estudos, obviamente, preciso fazer observações e anotações e, por usar um material emprestado, eu não poderia riscar ou danificar de nehuma forma os livros que estavam comigo. Acho um absurdo quem suja, danifica e rabisca um livro alheio, principalmente os da bibliotecas.

Eu já estava “juntando as moedas” para adquirir os livros mais urgentes na bienal essa semana quando tive uma grata surpresa. O vizinho que está de mudança deixou uma caixa de livros na rua para doação. Quando abrimos a caixa, advinha só quem estava lá entre tantos volumes: os três livros que eu iria comprar! Não teve jeito, abraçei os livros e pulei de alegria. Quem não pularia?

5.4.17

Dos sustos

Agora somos parte das estatísticas, minha mãe e eu.

Ela, que foi diagnosticada com dengue na última sexta-feira, quase nos matou do coração ao perder os sentidos e desmaiar de tão fraca que estava. A sorte foi minha irmã estar bem perto e perceber o exato momento em que nossa mãe se desequilibrava. Ela não se machucou, foi hospitalizada e muitas horas e litros de soro na veia depois, voltou para casa. Ela está de repouso absoluto e está se recuperando bem.

Eu não me sentia bem desde a última quinta-feira, mas ainda não havia aparecido nenhum sintoma concreto. Na sexta, as primeiras manchinhas no corpo surgiram, mas depois do susto que levamos com minha mãe, fiquei meio anestesiada. No sábado, me senti um pouco mais fraca, mas o dia foi relativamente normal entre goles de soro caseiro, água de côco, sopas e sucos. Era madrugada quando levantei para verificar se minha mãe estava com febre, fui à cozinha buscar água e então aconteceu: perdi os sentidos e desmaiei também.

Que coisa mais esquisita é perder o controle de si! Eu achava que "estava bem" e não percebi o quanto o meu organismo ainda estava fraco. Como cai com o rosto direto no chão, que maravilha, fiquei com o lado direito um pouco machucado, mas nada demais. O "lado bom" desse caos todo foi o carinho e cuidado que recebemos de todos durante esses dias de molho em casa. Somos peças de uma engrenagem muito maior e não vejo a hora de estar funcionando 100% novamente. Estamos quase lá!


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ps: Gente, com essas chuvas não dá mesmo para dar bobeira para os mosquitos! Fiquem de olho para não deixar água parada por aí também! <3

25.3.17

Dos voos

Em 2011, exatamente nesse mesmo dia, embarcávamos para a nossa aventura no velho mundo. Foram três meses que se transformaram em quatro anos de crescimento e de experiências incríveis. Basta fechar os olhos para reviver o primeiro dia, o primeiro café da manhã e a primeira caminhada pela cidade. Tudo era incrivelmente mágico e eu não conseguia acreditar que estava lá depois de tanto tempo, tantos planos e tantos adiamentos.

(…)

Foi incrível, mas não me arrependo de ter voltado, apesar do cenário atual, das lamentáveis últimas notícias e de todos os pesares envolvidos. As experiências profissionais e pessoais que vivemos aqui nesse momento também foram muito desejadas e planejadas. Não sabemos ainda o que será de nós nos próximos anos, mas sinto que é como se estivessemos novamente na fila, aguardando a nossa vez para pular no trampolim de novas possibilidades.





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ps: E a vontade de colocar o circunflexo no título? =P

14.3.17

Dos discursos

Nos ônibus, nas calçadas, nas filas, está difícil andar por aí sem ouvir o ódio gratuito sendo destilado por todos os lados. São opiniões grosseiras, preconceitos enraizados, ignorância exposta sem dor e sem máscara. É tanta falta de respeito e bom senso que às vezes me pergunto se o que vejo e e escuto é mesmo verdade.

Como é difícil se colocar no lugar do outro e compreender as necessidades, as dificuldades, as desigualdades e as limitações de cada um. É tão mais fácil julgar, possuir a certeza e a verdade absoluta, e até o direito de matar outro ser humano a pauladas! Somos uma sociedade doente e, para a surpresa de muitos, o ódio não tem endereço certo ou classe social.

Eu sei que está difícil, que é desumano suportar tanta desigualdade e injustiça, mas precisamos sim fazer um esforço. Vamos ouvir melhor e observar a nossa rotina com mais cuidado. Vamos respirar fundo e tentar não colaborar com a propagação de boatos e mentiras. Não é fácil, mas precisamos tentar, nem que seja por um único dia, a não alimentar esse ódio que, a cada dia que passa, leva um pedaço de nós. 

3.3.17

Das cinzas

Escrevi dezenas de posts no mês de fevereiro, mas estranhamente, nenhum deles tomou corpo ou palavras e ficou por aqui. Com a variedade de mídias disponíveis atualmente, não tem jeito mesmo e um texto se transforma mais facilmente em uma imagem ou se resume em 140 caracteres. A cada dia fica mais difícil escrever.

Assim como diz o ditado, meu ano também recomeçou pra valer – psicologicamente – agora na quarta-feira de cinzas. Não que janeiro e fevereiro tenham sido um mar de águas calmas, muito pelo contrário. O carnaval veio mesmo como uma válvula de escape e descanso para a mente, pausa mais que necessária para me trazer um pouco de freio para meus dias acelerados.

Tivemos dias bem chuvosos por aqui e que maravilha foi poder acordar e dormir com o barulhinho sagrado no telhado, sem hora para nada, curtindo o bom e velho ócio. Também visitamos amigos, comemoramos mais algumas boas conquistas e tomamos algumas decisões necessárias para o desenrolar dos nossos projetos em andamento.

2017, agora vai.

29.1.17

Da alma

Um dia, enquanto tomava café e olhava o quintal, fazia algumas observações sobre as plantas quando minha quando vó disse que sempre quis ter uma orquídea. Lembrei de outro dia, quando ela me viu chegar em casa com uma sacola de mudas de mudas floridas e perguntou se alguma daquelas era uma orquídea. E passou.

Nos últimos dias de janeiro, minha vó estava com a saúde frágil e, apesar de não falar nada, foram dias muito difíceis para mim. Fiz algumas visitas durante a semana e em meio a uma recomendação e outra de cuidados, percebi um vasinho de orquídea branca, de plástico, na mesa da cozinha. Estava decidido.


Foi com muita alegria que comemoramos o aniversário de 82 anos da minha vó no último sábado. Todos os tios reunidos, crianças correndo pela casa, muito barulho, tudo muito simples e verdadeiro. Quando cheguei com o presente, que coisa linda foi ver os olhinhos dela brilhando quando olhava para a flor e me abraçava apertado. Naquela hora ninguém mais viu, mas ela me sorriu com a alma.

15.1.17

Dos planos

Confesso que essas duas primeiras semanas de 2017 foram vividas no modo automático e só agora tive coragem de encarar friamente o papel para escrever as “coisas a fazer” nos próximos meses. O ano que passou permitiu que eu realizasse alguns dos grandes desejos dos últimos tempos, que era voltar a trabalhar na minha área e voltar para a universidade. Essas duas atividades continuarão preenchendo basicamente todos os minutos dos meus dias.

Para esse ano, não quero nada de muito extraordinário na lista. O objetivo principal é continuar trabalhando, estudando e crescendo. Mas preciso acrescentar uma rotina de atividade física e preciso também separar um momento no final de semana para o lazer. Nem é tanta coisa assim, mas trazendo para a minha realidade, não estou encontrando meios de encaixar a vida real em 24 horas. Como é que vocês conseguem?

Não sou tão desorganizada com minha rotina e minhas coisas, o maior vilão por aqui atualmente é o tempo de deslocamento entre as minhas atividades diárias, que acontecem em pontos distintos da cidade. Tem o ônibus lotado e têm o trânsito de cada dia. Nem sempre é possível, mas o jeito é otimizar esses vários minutos diários e adiantar as leituras da faculdade, por exemplo. 

Nunca me senti tão fraca e tão cansada, tudo consequência do sedentarismo. Minha coluna exige que eu faça alguma coisa – urgentemente – e pelo andar da carruagem, só caminhar por aí não vai dar muito certo não. Vou ter que procurar ajuda para fortaceler minha musculatura e tudo indica que precisarei me matricular em uma academia. Onde? Boa pergunta. Ainda estou analisando a rotina, os deslocamentos, o horário das disciplinas e todas as variáveis possíveis para que eu possa encaixar essa atividade na minha vida.

No meio disso tudo, quero também aproveitar melhor os meus dias. Quero continuar cuidando do jardim, que me faz um bem tão grande e é a minha melhor terapia. Quero finalmente iniciar os meus estudos relacionados à espiritualidade, algo que já venho fazendo a algum tempo sozinha, mas que agora precisa ser acompanhado e direcionado. Quero também aproveitar a vida e a cidade no meu momento de lazer, ir ao cinema, ao teatro, à praia, etc.

Olhando agora tudo escrito no papel, parece até muita coisa, mas não acho que não seja realizável. O que não dá é para levar uma rotina sem verdade: sem vida, sem sorriso, sem luz e sem cor. Que o nosso ano seja feito de encontros bonitos e de conquistas sinceras, sem essa paranóia diária de tempo e de produtividade. Espero que dê certo, vamos ver no que vai dar. =)

12.1.17

Dos esquecimentos

Há dias que ando com uma sensação maluca de estar esquecendo alguma coisa e não faço a mínima ideia do que possa ser. Não consegui ainda entrar no ano novo e também não estou no ano velho, caminho por um limbo de datas e contratos. Ainda bem que não assino nada e que o computador está atendo aos meus dias. Seria isso um reflexo de não ter ainda comigo uma agenda para organizar os meus próximos passos? Talvez seja o não mergulho da alma, que tira a poeira do que passou e limpa a mente para o que virá.. 

5.1.17

Do chão

Choveu bastante durante a manhã e, durante o percurso para o trabalho, fui observando os já tão familiares pontos de alagamentos que existem pela cidade. Mais uma vez, a fila interminável de pessoas que aguardavam o ônibus denunciava um possível atraso. Rotina, nada de mais.

Na fila, a mulher que estava na minha frente demonstrava bastante impaciência. Se mexia sem parar, falava ao celular e comia bombons, um atrás do outro, obsessivamente. Achei curioso e agradeci aos céus por estar calma nessa manhã. Tinha prometido a mim mesma que não me estressaria com bobagens.

Conhecer a dinâmica que ocorre todos os dias nesse mesmo horário ajudou bastante, é verdade. Os ônibus atrasados chegam sempre juntos e saem em comboio. Não importa se você chegou quarenta ou vinte minutos antes: vai sair junto com os demais. O destino é chegar atrasado.

Para a minha surpresa, percebi que o chão se enchia de embalagens. Uma, duas, três, quatro... Olhei para as mãos nervosas da moça da fila e pude testemunhar o fato. Com a mesma raiva que desembrulhava os bombons, jogava os papéis no chão. A lixeira a menos de três passos de  distância e a rua do outro lado alagada.

Fiquei incomodada e não sabia o que fazer. Chamar a atenção de uma  mulher da minha idade por jogar papel no chão? Fiquei envergonhada. Olhei a bolsa, o vestido, as unhas feitas, o celular da moda na mão. Tentei fingir que nada estava acontecendo, mas não pude ignorar. Apanhei todos os papéis do chão e fiquei esperando ela pegar o próximo bombom. Assim que terminou de colocar na boca eu bati delicadamente no ombro dela e falei: me dá moça, eu coloco no lixo pra você.

Ela ficou visivelmente sem jeito. As pessoas em volta também ficaram envergonhadas. Não sei se fiz o certo, se foi a abordagem mais adequada, mas não poderia não fazer nada naquele momento. Quem me conhece sabe o quanto sou apaixonada pela educação ambiental. Dois ônibus chegaram. Ela foi no primeiro, lotadissímo. Fui sentada no que veio atrás. 

2.1.17

Dos dezessete

De 2016 levo o aprendizado e a esperança de dias melhores - bem melhores, por favor - para todos nós. Que seja um ano novo de muita leveza, de chuva, de sorrisos, de mar e de alegrias.


6.12.16

Dos nadas

Eu tinha planejado fazer algumas coisas no final de semana, mas depois de ter tido também alguns dias tão difíceis, confesso aqui que escolhi simplesmente fazer nada. Eis uma pequena lista de alguns “nada” que foram feitos sem nenhum peso na consciência:

·         Escolhi dormir muito, até tarde, no sábado e no domingo;
·         Por conta da escolha anterior, escolhi não ir à praia cedinho;
·         Escolhi tomar café na hora do almoço;
·         Escolhi não sair de casa para resolver pendências no sábado à tarde, como havia planejado;
·         Escolhi não fazer o trabalho que o professor havia pedido para segunda feira;
·         Escolhi não estudar as duas mil horas prometidas para mim mesma em momentos de desespero;
·         Escolhi não iniciar a mega faxina de dezembro, não agora;
·         Escolhi ficar na cama, sem culpa nenhuma, aproveitando o meu tempo de ócio;
·         Escolhi assistir filmes bobos;
·         Escolhi pipoca e sorvete, não tem escolha mais feliz;

Escolhi tirar um pouquinho o peso da cobrança dos ombros e, vejam só, a segunda feira foi um dia normal! Os prazos de entrega dos nossos projetos foram reajustados, os telefonemas, as cobranças.. fluiu tudo normal! Para fechar o dia, ainda fiz o trabalho para a faculdade, mas o professor teve um imprevisto e não pode dar aula! 

Enfim, esse é um post infantil para lembrar a mim mesma que a gente corre tanto, se cobra e se desgasta tanto por coisas tão pequenas, que acaba esquecendo o essencial, como dar um abraço na pessoa que mais ama antes de sair de casa. A vida é um sopro, minha gente. Um sopro e nada mais.